Exposição Corpo Trama


GRUPO ESTEIRA DE PERFORMANCE EM ARTES VISUAIS DA UNIVASF :
Discentes: Victória Duarte (Psicologia) – vferreiraduarte@gmail.com; Pedro Lacerda (Licenciatura em Artes Visuais) – peedrolacerda@gmail.com; Valdeir Oliveira (Ciências Sociais) – oliveiravaldeir@outlook.com;
Docente: Sarah Hallelujah – sarahallelujah@gmail.com

ESTEIRA – sf (lat storea) 1 Tecido grosso de esparto, palma, junco, taquara etc., que serve para cobrir o chão das habitações e para outros usos. 2 Tecido de junco, de tábua etc., com que se cobre o sobrado e se fazem velas de pequenas dimensões para navios. 3 Rasto escumoso deixado pelo navio na água, quando navega; sulco. 4 Rumo, caminho. 5 Vestígio; reflexo, traço. 6 Exemplo, norma, modelo. 7 gír Estrada. 8 Aparelho de pesca que se emprega em alguns rios para apanhar os peixes que saltam fora da água. 9 Mec V lagarta. 10 Plataforma móvel, usada nos engenhos de açúcar, sobre a qual se arrumam as canas, e que as conduz à boca do aparelho de esmagamento. 11 Reg (Marajó) Albardão de junco, sobre o qual se prende a cangalha, depois de amoldado à forma do dorso do animal. 12 Náut Orla inferior de uma vela. sm Reg (Nordeste) Vaqueiro que, na condução do gado, segue, ladeando as reses, atrás dos cabeceiras. E. transportadora: o mesmo que correia transportadora. Fazer esteira: seguir a rês, emparelhando com ela o cavalo, para que outro vaqueiro a derrube do outro lado. Ir na esteira de alguém: seguir-lhe os passos ou o exemplo.
Por meio desse objeto/conceito os discentes da disciplina Performance nas Artes Visuais lunos foram provocados á criar relações práticas e teóricas com a “esteira”, assim trago algumas de suas falas entrelaçadas: “Pensando-se no material, é construída através do entrançamento da palha, ganhando resistência para proteção do corpo, pois em seu aspecto funcional, pode ser utilizada para dormir, como forma de abrigo do chão frio e de suas impurezas…Porque o significado da performance é um somatório, não pode ser definida com um “é”, mas talvez um “são” ou um “sendo”, pois a corrente de significantes é constantemente ampliada e modificada por meio de um inconsciente coletivo. É algo em processo, um eterno projeto, é aquilo que é, mas também é aquilo que não é.” Victória Duarte, e também: “Esteira é a extensão de nós, para com a gente mesmo, em nosso nós, nossas tranças e tramas íntimas, espirituais. É extensão de nós para com a/o outra/o, nas mais complexas relações em todos os aspectos que perpassam as relações-coisa que não dá pra medir ou citar por completo, é um entrelaçar de desejos, repulsas, olhares, cheiros, vislumbramentos, sons, gostos, sabores… É um mergulho em si mesmo e no outro indivíduo, para a tentativa de se compreender. É também meio de produção, de sustento. É geração de riquezas: financeira e de trabalho. É tradição que perpassa gerações. É a materialização do esforço intelectual de pessoas simples, com alma e coração nobres. Pessoas que imprimem suas características, seus amores na esteira, para que outras pessoas deitem e desfrutem desse amor, dessa ternura.” Valdeir Oliveira

Assim desenvolvemos esse trabalho/estudo/experiência, um grupo que pensa e experimenta o corpo e suas relações com o espaço, o tempo, os objetos e o outro.

De muitos significados muitas também foram as possibilidades exploradas por esse grupo. Da ideia de rasto, de caminho, de vestígio deixado ao passar, da esteira deixada pelo navio, no oceano, navegamos experimentando com uma bússola quase desmagnetizada. Testes e experiências nos levaram a provocar, testar, propor, compartilhar, estudar, e por fim, brincar.
Dessa brincadeira curiosa, fascinante, instigante nascia um grupo que buscou se conhecer, descobrir o seu corpo, descobri sua potência poética. Que no tramar e destramar da esteira metafórica cotidiana da sala de aula, se descobriu criativo.
Do tecido grosso usado para cobrir o chão, cobrimos nossos corpos e passamos a circular em um espaço público, a feira. Provocamos os que ali estavam: havia um corpo nu em baixo dessa esteira de palha? Os olhares julgadores e curiosos não nos passaram despercebidos. Nesse momento a esteira, cobriu, protegeu, ao mesmo tempo que pôs em evidência uma fissura no cotidiano do mercado de Juazeiro.
Também por meio dela buscamos nos conectar, nos conhecer, ouvir, falar, ver, relações que estavam a serem construídas com a arte e nossas individualidades.
Buscando um rumo, um caminho, passamos a toda semana experimentar nossos corpos, o espaço, alguns objetos, diálogos mediados pelo tempo. De atividades simples, a construção de uma ideia de performance foi sendo tecida. Os objetos são vestígios das ações. Pensar o corpo cotidiano se fez inevitável e coerente. Nossas falas, nossas ações são moldadas por pensamentos, pela criação, pelo passado de cada um, gestos prenhes de memórias. Cada qual traça seu trajeto, às vezes investigador, outras investigado.
A performance Arte as vezes beira à mímica, ao teatro, á dança. Mas, toda vez que tentamos cercá-la ela nos escapa, nos da um chute, uma rasteira. Peixes que saltam para fora da água, perdem o fôlego, mas podem ver além da linha d’água. Eles não querem somente seguir o curso da correnteza.
Não são conduzidos, mas convidados, levados à esse salto. Me sinto esteira, vamos? Cana que espremida vira doce açucarado caldo a celebrar e refrescar cada experiência urbana.
A rua foi nosso “palco”, lá conseguimos sentir outros corpos, aquele que observa e julga. O espaço urbano não foi suporte, com ele estabelecemos diálogos, lá onde não existe uma espera, onde o “erudito mundo da arte” não possui molduras, lá onde qualquer experiência poética que não seja somente estética ou aprazível aos olhos é vista com estranhamento. Assim, a cidade, o ritmo, a rua, a vida cotidiana, o rio, a praia, a feira foram lugares compartilhados na tentativa de estabelecer uma rasura poética em suas espacialidades.
Ir na esteira de alguém, segundo o dicionário é ir atrás, nos fomos juntos. Experimentando esteira, sendo esteira, deixando esteira. Abraçando árvores, liquidificando partituras, empacotando o próprio corpo, experimentando sons, dançando ao vento.

Sarah Hallelujah e Grupo Esteira